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Tipo Brasileiro

Eu sou assim:
Esse tipo bem brasileiro
Que sem forma nem raiz
Pode ser tudo o que quiser.
Sem cor definida,
Altura mediana,
Meio pobre, meio rico,
Que na média se desfaz.
Em estado consciente
Sei até o que me esgrima,
Inconscientemente pareço inverossímil,
E sou,
Como todos os que pensam que não são.

 

Senzala moderna

Interfones tocam,
Louças tilintam nas pias,
Vozes ecoam em tom de esculacho,
O elevador gira seu motor
Do andar de cima ao baixo,
Janelas dos fundos são pra piões,
Madrugam os moços e os velhos
Desde os tempos da senzala,
Janelas da frente são pra senhores,
Onde só mudou a mandança das Donas,
Taças, charutos e gritos
Vêm todos depois da abóbora,
E quem ousa misturar-se
Deixa a mente em frangalhos,
Perde o dia pela noite,
Ganha o choro do bebê,
Só não perde os passarinhos,
Que sempre teimam em cantar,
Seja dia ou seja noite,
Depende do dono que o comprar,
Se do alto ou se do baixo,
Se dos fundos ou se da frente,
Se do campo ou se do mar.

 

Fale ó moça do Nordeste


Desde cedo bem pequena
Não queria sair da cama
Todo mundo na vida falava
Que esse povo que sempre reclama
Quer boa vida e alguém que lhe ama

Fui crescendo e não entendia
Qual das vidas eu vivia
Vida boa ou de rotina
Vida mansa ou de latrina

Poesia é coisa louca
Que a gente não sabe de onde vem
Toma conta um desespero
De escrever coisas várias
Que só o coração detém

Enxuto não tenho inspiração
Meu lago e minha rede
Me convidam para um sopro
Que não passa de ilusão

Candongueiro que se preza
Adula em sonho desperto
Se achega bem perto da moça
Dispara uma chuva de coxa
E sai que nem mar no deserto

Mas moça que é sabida
Não cresce sem coração
Aprende poesia e prosa
Finge que não gosta e goza
E voa pra um outro sertão.

RTesch - Poesias Desoras - 2008

 

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Colóquio / Letras

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