O AUTOR, A ESCRITA E O LEITOR
Por Rosane Tesch
A escrita é a destruição de
toda a voz, de toda a origem. A escrita é esse
neutro, esse compósito, esse oblíquo,
por onde foge o nosso sujeito. (Roland Barthes)
Ler é como descobrir, a partir das próprias
vivências, o caminho em que se segue uma obra.
Mesmo que estejamos, temporal ou espacialmente, afastados
dela.
A importância do leitor na possível projeção
de uma obra (Umberto Eco) está calcado no fato
de que a proposta de um trabalho não pode ser
avaliado pelas simples condições em que
se inserem o leitor, mas que, antes, esse leitor deve
estar disposto a acompanhar o "mundo" em que
se enquadra o trabalho. Como um "espectador disposto
a sorrir com uma comédia com a qual se estabeleceu
uma espécie de pacto".
Em "língua e Progresso", José
de Alencar comenta o erro grave da escola clássica
em exagerar a influência dos escritores sobre
seu público. Escritor algum, fôsse ele
Homero, Virgílio, Dante ou Mílton, seria
capaz de parar ou retroceder uma língua.
O que deve ocorrer, na verdade, entre público
e escritor é o exercício de uma influência
recíproca. Se não há meio de aprendizagem
e de comunicação comparável à
leitura, como afirma Italo Calvino, isso se deve ao
fato de existir, através da leitura, todos os
questionamentos típicos de qualquer ser humano,
culto ou não, revelados pela ótica do
leitor.
O leitor é, antes de tudo, um crítico,
limitado ao seu conhecimento básico ou dotado
de todos os artifícios estruturais que, às
vezes, não permite que inverta os papéis.
Antes do crítico está o leitor, símbolo
de suas crenças, conceitos e preconceitos, e
uma série de outros pensares que podem se superpor
ao profissional ou sujeito imparcial.
A frase "O leitor do ano 2000 sempre será
o leitor do ano 2000" parece simples, mas projeta
o espectador/leitor que não somente somos, mas
que passamos a ser, por várias fases, o que implica
numa releitura que será sempre como uma primeira.
As interrogações sempre estarão
presentes nas obras a que nos dispomos a interpretar,
a diferença é que em cada leitura focaremos
o que nos for mais sensível no momento.
Assim como a sensibilidade momentânea do autor
se faz presente na obra, mas por escrita se perpetua,
cabe ao leitor dar a mesma obra as diversas possibilidades
de leitura como fruto do trabalho presente.
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